Sobre o Amor (Ensaio Lírico)
Ensaio Lírico
Sobre o Amor
Antes de iniciar qualquer conversa minimamente madura sobre o tema, eu gostaria de citar algo que me parece uma regra. Sempre que ouço falar de amor, uma voz na minha cabeça repete um ditado absurdamente comum nas conversas rotineiras que eu tinha com meus amigos do ensino médio: "Amor é uma flor roxa que só nasce em coração de trouxa." Hoje, quase uma década depois, eu ainda não consigo refutá-lo efetivamente.
O que é controverso é que eu, mesmo na minha fase mais madura (até agora), não consigo evitar imaginar que meu travesseiro é um determinado alguém quando esse alguém passa a ocupar meus pensamentos. Nesses instantes de aconchego, só Deus sabe o quanto eu queria sentir aquele cheiro, o quanto eu queria sentir a textura daquela pele. Se eu pensar no quanto o beijo daquele pedaço de mau caminho deve ser bom, não consigo evitar um suspiro. E, automaticamente, passo a me julgar. Como e por que alguém continua imaginando algo assim depois da adolescência? Esse devaneio parece tão distante da sobriedade da vida adulta que soa bobo e supérfluo.
Mas talvez seja isso. Amar é supérfluo e bobo. Ninguém precisa de amor romântico para viver. Ninguém morre por hipoafetividade.
Mas o amor está naquele lado humano que nos faz sorrir no banho, no meio-dia de uma quarta-feira. É aquele gritinho agudo que se dá com os amigos mais íntimos. São aqueles minutos de terapia que, quase sempre, justificam a busca por ajuda.
Amar é difícil, é complexo e é infinito.
O amor é uma sede que nunca se sacia, e isso deveria ser antievolutivo, mas não é. De alguma forma, a evolução permitiu que nosso sistema límbico hipertrofiado fosse não só preservado, mas também maturado durante os últimos 300.000 anos. Nossas redes de afeto são justamente o que nos permitiu chegar tão longe. Amar a família nos faz lutar por ela. Amar alguém faz você querer ficar. Faz você querer cuidar. Nenhum de nós seria nada se, antes de tudo, não fôssemos amados pelos nossos e, talvez por isso, o ato de amar seja tão cheio de nuances.
Para meu próximo amor, tratarei de fazer com que responda às seguintes perguntas, mesmo sem perceber:
Veja bem minhas cicatrizes, meu mais sincero amor. Elas são algo que eu preciso esconder em prol da estética ou são resquícios da história de alguém que sobreviveu?Não sei com que frequência você pensa na (in)finitude, meu bem-querer. Mas, se por algum período pudéssemos estar do outro lado, num lugar em que não existem corpos, fome nem dinheiro, que tipo de alma você escolheria para ser sua companhia? Sua alma buscaria a minha, mesmo sem o toque físico?Todos os dias acordamos nesta vida desnorteados. Precisamos de alguns minutos, todas as manhãs, para lembrarmos de quem somos e do que queremos. Cada pessoa é um mundo de pensamentos e desejos ocultos, e isso é claro. Contudo, meu encanto, em quem você pensa quando vai à luta? E quem você anseia encontrar quando volta?
E tantas outras coisas haveria de perguntar e responder antes ou durante meu doce delírio de dopamina, ocitocina e outros...
Amar é bom porque dói.
Amar é fácil quando a ausência é difícil.
Amar é doce até que você queira algo salgado.
Cayo Rayan

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