O que não me pertence (Crônica )
.Crônica.
O que não me pertence
Eu fiquei sabendo de tudo. Tudo o que você e seus amigos disseram. Contudo,
eu estaria mentindo se fingisse surpresa. Duas toneladas de crueldade sobre a
mesa e comentários sarcásticos sobre uma causa que eles sequer conhecem em profundidade.
Mas vocês sempre torceram por isso, quase como se tivessem um compromisso,
ou um fetiche. Como se minha dor fosse um prazer. Como se eu merecesse sofrer
apenas por ser quem sou.
Minha queda foi um desastre puro. Eu poderia tê-la evitado se fosse mais
maduro, mas eu não era. Eu simplesmente não sabia. Aprendi da pior forma que
maturidade é como força bruta: só faz falta quando não foi treinada.
Tomei posse de uma função que não me cabia. Troquei o dia pela noite. Dei
tudo o que era aconselhável dar e aguentei até onde foi possível, mesmo que
minhas palavras fossem, mais uma vez, invalidadas e minha história,
lamentavelmente, dependesse de uma validação externa que eu nunca quis ter.
Chame como quiser: burrice ou rebeldia. Ria o quanto quiser, e espero que
você e sua turma de víboras riam em sincronia. Vamos lá: espalhe, distorça,
enfeite, faça render. Como o show de horrores que eu sempre soube que acontecia
entre mensagens de WhatsApp e sussurros de corredor.
Seria incoerência minha fingir que isso muda algo. Não muda. Mas diz muito,
e não necessariamente sobre mim. Porque, apesar de ocupar os mesmos lugares e
atravessar os mesmos processos, aos seus olhos eu nunca fui, e talvez nunca
seja, digno das mesmas vitórias, mesmo quando as conquistei.
Em um passado não tão distante, eu me sentiria triste diante da forma como
vocês zombam das minhas feridas. Hoje, tenho consciência suficiente das minhas
cicatrizes e entendo que a vida não é a mesma para todos. Para alguns, ela se
aproxima mais da morte, da precariedade e da exclusão do que do privilégio.
Num embate cara a cara, meus argumentos seriam mais baixos. Então agradeçam
à distância por afastar minha língua afiada e meus neurônios elétricos dos seus
egos inflados.
Entretanto, porém, contudo, todavia, meus queridos amigos: eu os perdoo.
Não porque mereçam, mas porque eu não carrego mais o que não me pertence. Eu
reconheço seus pensamentos, mas sei que eles não correspondem à realidade.
Durante toda a minha trajetória me exigiram uma perfeição que eu nunca pude
alcançar e tentar corrigir todos os erros possíveis é como secar gelo. Estranho
que um ser humano precise atender a tantas expectativas externas para não ter o
próprio lugar contestado.
Na verdade, meus problemas se tornaram assustadoramente maiores do que
intrigas de sala. Agora o tema é identidade, sucesso, futuro e, com isso, o
assunto ficou profundo demais para quem nunca aprendeu a mergulhar.
Talvez eu carregue para sempre as marcas daquele assédio. Talvez ainda
precise de tempo para me reerguer e, por ora, nem toda minha bondade alteraria
o desfecho que me foi imposto. Ainda assim, há de haver um amanhã, e um depois
de amanhã, e um ano novo, e uma nova temporada.
Lembre-se de mim daqui a uma década.
Lembre-se de que eu ainda sou um ser humano, falho, mas em constante
crescimento.
Lembre-se do meu nome, my dear former friends.
Cayo Rayan

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