Se O Tempo Me Faltar (Ensaio)

Cayo Rayan

 

.Ensaio. 

Se O Tempo Me Faltar


Dentre todas as conversas desconfortáveis que fui e que sou obrigado a ter, essa é uma das mais espontâneas. A ideia da minha finitude flutua entre uma lástima que eu quero adiar a todo custo e uma dádiva para meus dias genéricos. Pensar sobre o caminho não me torna um corredor melhor, mas esse pensamento é quase inevitável quando a sola do seu pé arde, o suor corta seu rosto, a sede aperta sua garganta e você percebe que não há nenhum oásis no horizonte.

 

A verdade nua e crua é que se minha partida vier cedo eu aceito todas as honrarias de bom grado. Sim, eu quero todas as flores, as lágrimas e os discursos bonitos que eu nunca tive a chance de ouvir quando vivo. Eu quero ouvir que eu era uma boa pessoa e que eu não merecia padecer tão jovem. Eu quero um caixão bonito e uma cova em terra fresca, nada de túmulos cimentados. Me agradaria se cantassem os hinos que cantávamos na igreja quando eu era criança. 


Mas, só isso, ou não só por isso? 


Por mim tudo bem se o mundo seguir igual e apático no dia seguinte ao meu funeral. Meu espírito não se sentirá ofendido se não fizerem uma missa do sétimo dia ou se toda a comoção se resumir à visão inusitada do meu corpo cadavérico. Tudo bem. Como tantos outros, eu nunca fui especial o suficiente para parar a humanidade por mais de um instante. 


Se eu morrer antes do previsto, eu quero que se lembrem de mim como o amigo que outrora esteve contando piadas no intervalo. Eu quero que lembrem dos textos pelos quais minha alma se esvaía. Eu quero que vejam os vídeos do meu canal do YouTube e que, talvez, gostem do artista que eu tentei tão veementemente ser. 


Se minha partida vier cedo, quero que lembrem dos lugares que eu frequentava. Porque sei que meu espírito vai visitar aquele balanço da pracinha, aquele sítio do interior e a casa na qual cresci. Estarei lá antes que minha alma suba aos céus. 


Se o tempo me faltar, eu quero que pense em mim, até involuntariamente, quando ouvir alguma música da Camila Cabello. Quero que lembre de mim quando o Spotify recomendar aquele álbum Indie que eu vivia indicando e que você se sinta abraçado nos momentos em que minha memória for dolorosa. 


Faço o pedido singelo de que meus dois bichinhos sejam bem cuidados, pois eles foram as testemunhas e o apoio que me restou quando a vida foi cruel a ponto de espremer meu coração a um décimo do tamanho original. Felizmente, como uma espuma, meu coração voltou ao tamanho original assim que a vida se tornou minimamente suportável de novo. 


Se eu me for de repente, meu bem, eu quero que você lembre de mim, pelo menos na data do meu aniversário. Quero que cante parabéns em minha memória e que saiba que eu queria que este fosse um dia feliz, apesar de tudo. 


Espero que se lembre das minhas colocações, nada surpreendentes, sobre a importância de estudar e de lutarmos pelos nossos sonhos. Espero, genuinamente, que você tenha a chance de viver todas as coisas bonitas que essa vida infame tem a nos oferecer. E desejo que você saiba que eu estaria ao seu lado, comemorando-as. Lágrimas talvez sejam inevitáveis, mas eu nunca irei embora enquanto algum resquício do meu afeto florescer no seu coração. 


Talvez minha memória enfraqueça com o tempo, talvez apareçam outros amigos mais engraçados e eu espero que isso aconteça, se for te proporcionar algum conforto. 


Mas, se for possível, se lembre de mim. 


Se lembre de mim te aconselhando a viver. 

Se lembre de mim te aconselhando a lutar. 

Se lembre de mim te aconselhando a não desistir. 


Enquanto minha voz for aquele pensamento doce que faz sorrir sem que você saiba o porquê, eu estarei vivo, apesar de morto. 



Cayo Rayan


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