Por Que Medicina? (Crônica)

Cayo Rayan


.Crônica.  

Por que medicina?

É particularmente estranho escrever sobre esse tema a esta altura do jogo. Nesse ponto, eu já deveria estar me questionando qual área da medicina atende melhor às minhas expectativas profissionais. Então, analisar uma pergunta que me parece tão básica é, antes de tudo, um desconforto que eu sei que é necessário, mas que ainda é inoportuno.


A escolha de uma profissão envolve uma série de fatores internos e externos a qualquer pessoa, e as minhas motivações são complexas e multifacetadas, o que torna o diálogo bem mais existencialista do que uma simples constatação pessoal. A verdade é que frases como “eu acho a profissão bonita” ou “eu quero ajudar as pessoas” são falas genéricas que podem sair da boca de diversas pessoas em contextos muito diferentes.


E sim, eu acho a medicina uma profissão muito bonita e genuinamente quero ajudar as pessoas. Essa não é a questão.


O salário é um fator relevante? Claro, inevitavelmente. Em um sistema capitalista onde o dinheiro muitas vezes se sobrepõe à dignidade humana, arriscar-se a não tê-lo em quantidade suficientemente confortável é um ato arriscado, para não dizer irresponsável. Nesse sentido, gostar do que se faz é importante para tornar a caminhada mais leve, mas o gostar não substitui a necessidade de renda adequada, já que amor não enche barriga.


Gostar não é suficiente para nada nesta vida. Até no casamento, em que os sentimentos são uma parte crucial, não há possibilidade de durabilidade se, além do amor, não houver circunstâncias favoráveis. Num mundo tão rápido e consumista, contentar-se com algo bom é quase um crime contra a possibilidade de ter algo melhor, e invariavelmente todos temos impulsos e desejos que nos guiam, em maior ou menor grau, nas nossas escolhas.


A verdade é que eu não amo a medicina; eu gosto dela. Da mesma forma como gostaria de uma profissão na área da economia, psicologia ou pesquisa. O mundo não se faz só com médicos, engenheiros e advogados, como muitos dizem, mas o salário não acompanha proporcionalmente esse discurso.


É lamentável que médicos, advogados e engenheiros ainda tenham salários frequentemente melhores que outras profissões. E não é sábio imaginar que você pode compensar uma defasagem mercadológica com mais e mais esforço. Poderíamos ficar horas citando casos em que enfermeiros, professores e outros profissionais estudam por anos e não encontram empregos dignos após a formação, quer seja por saturação ou desvalorização.


Militar, questionar e pressionar por mudanças é essencial, mas mudanças levam tempo, e a vida de um ser humano é finita e terrivelmente curta. Você pode lutar por anos por um bom emprego e nunca consegui-lo por questões que extrapolam sua existência. Você pode ser um excelente profissional de Relações Internacionais, por exemplo, e ainda assim não encontrar trabalho no Nordeste, não porque você não seja bom, mas porque não existe demanda na cidade em que você quer ou precisa morar.


Apesar de o salário da medicina ser substancialmente melhor que o das demais áreas da saúde, a enorme quantidade de formandos está trazendo um novo horizonte para a área: a saturação e a superconcorrência. A população ganha, mas a remuneração cai e as oportunidades diminuem. Ainda que se formar seja mais seguro do que não o fazer, todas as profissões carregam riscos e desgostos.


Ter um bom salário e uma vida estável é uma meta para mim, e isso me faz ficar.

Ajudar as pessoas é uma boa causa, e isso faz com que eu me sinta útil.

Estudar bastante nunca foi um problema, desde que eu veja sentido nisso.

Quebrar o ciclo da pobreza e da obsolescência na minha família é algo que faz meus olhos brilharem.


Mas, antes de tudo, o que me faz ficar é que eu já investi tempo e recursos demais para simplesmente largar um projeto como esse pela metade, quando tenho o direito de seguir um novo caminho com mais garantias depois.


Eu posso cursar economia caso queira, e isso será bem mais tranquilo se eu puder custear minha vida com um trabalho relativamente bem remunerado. Cursar economia durante a noite enquanto atendo no meu consultório durante o dia parece um plano mais viável do que tentar vencer sendo CLT e não tendo controle sobre minha jornada de trabalho ou minha remuneração.


Apesar de que eu dificilmente trocaria minha profissão por outra, pois não vejo sentido em migrar de área se a minha já é bem remunerada e me dá a estabilidade que eu tanto almejo.

Mas eu diria que o principal motor para minha escolha sempre foi o desejo de ir além, de conseguir conquistar coisas difíceis e de me desafiar. Claro que essa luta torna-se idiota sem recompensas à altura, mas a medicina as oferece.


Então, parece-me claro que eu quero ser médico, e que eu seria um médico razoavelmente bom, se tivessem me permitido seguir meu caminho.


Já tenho um bom planejamento de como pretendo viver meu futuro: medicina, residência em clínica médica e depois geriatria. Trabalhar em um consultório, talvez montar meu próprio negócio de cuidados profissionais para a terceira idade. Já pensei em um “asilo premium” para famílias que querem viajar no final do ano e não têm com quem deixar um idoso acamado. Também me parece um bom negócio oferecer planos de atendimento domiciliar para famílias que necessitem, e dar a possibilidade de que pessoas que não tiveram filhos tenham a tranquilidade de receber cuidados especializados mesmo sem família, em troca de parte da aposentadoria, claro, porque amor não paga conta e eu não posso salvar o mundo inteiro sozinho.


Nesse sentido, sim, eu me vejo sendo feliz em outras áreas, como política ou literatura, mas nenhuma me dá tanta segurança quanto a medicina. Além disso, eu acho que seria um grande desperdício de neurônios não aproveitar meu potencial e minhas oportunidades para seguir o caminho mais seguro e rentável possível.


Estou na luta para abreviar meu tempo de faculdade e, apesar de a luta ser dolorosa e cansativa, a glória de uma vida que me faz sentido me fez ficar. Contudo, ainda me sinto morto por dentro.


Em algum momento, emocionalmente, eu fui assassinado, e é como se a bala ainda estivesse alojada nas minhas entranhas, me causando uma série de sintomas que eu não consigo ignorar. O antigo Cayo morreu aos 22 anos. Todos sabiam o autor do disparo, mas ninguém teve coragem de confrontá-lo.


Minha lápide solitária expressa uma única frase:

Foi sem querer, porque era cedo e queria ficar.


Meu espírito ainda vaga pelos lugares que eu frequentava e ainda sofre pelos projetos interrompidos. Eu nunca duvidei da minha força, nunca duvidei do quão longe eu poderia ir, mas certamente entrei na mira de pessoas muito maiores do que eu, e isso me custou tudo o que eu tinha.


Ainda não me foi dada a permissão para reencarnar e meu sofrimento se prolonga como num deserto sem fim em que minha presença é impedida de sumir. Apenas preso nessa imensidão vazia, sem nenhuma boa notícia há anos e sem nenhum sinal de chuva há séculos.


Escrevi contos e poemas sobre minha morte, sobre meus ossos e sobre meu espírito, mas eles me parecem, às vezes, apenas palavras ao vento. Escrever quase sempre é solitário e pouco efetivo, mas alivia meus pensamentos porque me permite criar algo que expressa o que eu sinto.


Torço por uma reencarnação mais tranquila e espero ter maturidade suficiente para tirar proveito dela quando a tiver. Por ora, o que me resta é esperar e lutar pelas memórias e pelas aspirações que me restam, porque elas foram tudo o que sobrou de uma vida que tinha tudo para dar certo, mas não deu.


Ser médico seria a redenção, ainda que tardia, de todo meu sofrimento, de todo o suor e de todo o ATP gasto nessa luta. Validaria tudo. Tornaria tudo útil. Seria como chegar à Lua depois da corrida espacial entre EUA e URSS


Sem o resultado, toda minha história é apenas um grande “e se”.


Cayo Rayan


Comentários

Postagens mais visitadas