Assistolia (Conto)

 

Cayo Rayan

.Conto. 

Assistolia


Eu sonhei com isso desde que eu tinha dez.

Esse é um longo caminho, que percorri com rapidez.

Eu corri porque tinha pressa,  tempo é ouro quando algo te interessa.

Eu nunca vi esse filme antes.

Eu só li a sinopse.

Eu nem sequer sabia que estava na sua mira.

Nem de que objetivo você se consumia.


É noite de festa e todos estão aqui.

Todos querem me ver brilhar nesta noite e, por cinco minutos, eu quero isso também.

Este é o meu momento. Eu vesti meu terno bordado. Minha mãe costurou essa gravata. Eu escolhi os sapatos a dedo. Eu estava sorrindo com facilidade no caminho até aqui.


Eu sonhei com essa noite desde os dez.

Num segundo eu estava caminhando, entrando no salão de festas.

Flashes brilhando ao fundo, ruído de celebração no ar.

Até que um barulho chama a minha atenção.


— Bum.

E o mundo passou a girar.


180 batimentos por minuto


Vejo estranhas estrelas. Cambaleio pelo salão.

Sinto meu rosto enrubescer e tocar o chão.

Meu coração dispara, meu peito dói,

minha ansiedade ataca,

meu medo corrói.


220 batimentos por minuto


Estão gritando ao meu redor, mas isso não chega a ser o pior.

Toquei minha roupa, algo viscoso na ponta do dedo. Esse líquido me desperta um súbito desejo de iniciar franca gritaria, mas temo que ninguém me ouviria. O salão está cheio de pessoas, mas poucas me veem. Ninguém me ouve.


230 batimentos


Isso não é assunto novo.

Meu sofrimento não comove. Esse sonho cria uma atmosfera trágica. Dentre sorrisos, um dilema ético. Estou cercado de médicos, mas ninguém se prontifica. Eu sei de todo o protocolo, mas não posso aplicá-lo em mim mesmo.

Olho ao redor. Uma figura mascarada corre pelos arredores.

Todos os problemas sempre estiveram nos bastidores. Todos os erros, os atrasos e os rumores.

Como eu pude ser tão inocente, sabendo o quanto você era cruel?

Me contorço sobre o tapete. O vermelho do meu sangue se mistura ao tom do tecido.

Todos permanecem como espectadores enquanto eu sangro no saguão de entrada.


250 batimentos


Fechei os olhos.

Apertei o peito. Como você pôde fazer algo tão cruel?

Sua bala me atravessou feito papel e se alojou no abdômen.

Meu sangue se esvai e estão tirando fotos minhas em vez de me ajudar.

Sob meu delírio de dor, um flashback maluco. Você repete as mesmas palavras daquela tarde esquisita.

Você me diz que eu não merecia.


180 batimentos


Eu estava tão perto, mas você precisava ter seu momento de vingança.

Meus olhos ficam marejados. Como você pôde puxar o gatilho por algo tão pequeno em um momento tão sensível? Você estragou meu terno de formatura com um furo de bala, e eu engasguei com meu próprio sangue

enquanto tudo era assistido por tantos. E surgem tantos questionamentos na minha cabeça. Eu nunca vi esse filme antes. Eu só li a sinopse. Então, por que comigo?

Por que você precisava ter tanta amargura

a ponto de puxar o gatilho?

Eu teria aceitado uma conversa difícil em vez de um assassinato. Eu estive aqui por tanto tempo.

Prometi que seria um bom garoto e, no fundo, eu sinto que fui. Deus sabe que eu fui.


90 batimentos


Você manipulou narrativas.

Escreveu histórias nas quais eu era um monstro e eu nunca pude me defender, mesmo quando insisti em dizer minha versão.

Você repetiu que eu deveria ir embora, mas aquela casa não era meu lar.


60 batimentos

Eu estive aqui quando meu mundo ruiu. Eu escrevi sobre isso e você deveria ter lido, mas preferiu acreditar no que era conveniente. Eu pedi ajuda em mais de um momento.

Você me deixou para morrer, mas eu sobrevivi.


30 batimentos

Eu poderia explicar tudo o que me pesava.

Existiam tantas formas de contornar aquela tragédia.

Tantas.

Mas você quis cometê-la.


15 batimentos

Minha respiração acelerada torna-se trêmula.

O calor do meu corpo vira um frio intenso

que faz minhas extremidades empalidecerem.

Os gritos histéricos cessaram.

É como se a plateia já tivesse aceitado meu fim antes mesmo que ele se pronunciasse.

E pensar que tudo isso era reversível até alguns segundos atrás.


10 batimentos


Eu não sei quanto do vermelho no chão é meu.

Eu não sei para onde foram minhas forças.

Escuto uma sirene distante.

Você sumiu e ninguém te procurou, porque todos sabem quem você é.

Ainda tentei dizer algo, mas desisti no caminho.


5 batimentos


Para onde vai o tempo quando nós o perdemos?

Eu nunca vi esse filme antes. Eu só li a sinopse. Então, por que eu?

Você foi um covarde por puxar o gatilho.

Eu escreveria textos tão lindos se você tivesse me deixado viver.


Assistolia.


Isso poderia ter sido evitado.

Você deveria ter lido minha carta.

Mas escolheu destruir tudo o que eu já tinha construído.

Você tirou de mim o que seria a noite mais feliz da minha vida, transformando-a em uma carnificina gratuita.


Assistolia.


Para onde vai o tempo quando nós o perdemos?

Vai para as noites de insônia ou para os sonhos que esquecemos logo após acordar?

Por quanto tempo é possível ficar vivo sem sangue?

Meu coração morre antes ou depois de mim?

Eu vou saber quando chegar lá, ou isso é o tipo de coisa que se tem sem perceber?


Assistolia.

Eu nunca vou conseguir te perdoar pela bala.


Assistolia.

Você estragou meu terno de formatura e eu não sei mais como consertá-lo.


Cayo Rayan

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