Felicidade Clandestina (Poema)

Cayo Rayan


.Poema. 

Felicidade Clandestina


Puxe uma cadeira e se sente ao meu lado

Fale tudo o que quiser ou continue calado

Sobre o clima, que belo dia nublado

Sobre a vida, nada a ser declarado


Sim, meu sincero amigo, nada a dizer

Mas, se lhe interessar, se te der prazer

Choraria minha tristeza mais uma vez

Mas faltam-me lágrimas, e talvez


Chorar não seja a resposta correta

Pra minha ruína dolorosa e indiscreta

Pra dor que se tornou fria rotina

Pro velório de minha felicidade clandestina


Pro balanço nunca mais visitado

Pra um adeus tão forçado e tão inusitado

Pro cachorro que eu não pude trazer

Pra saudade que faz meu peito doer


Tantos pensamentos por minuto

E o único veredito enxuto

É que eu era só um garoto

Quando todo aquele alvoroço


Tomou de mim o que eu mais amava

E me deixou a conta, enquanto eu afundava

Essa maré ruim talvez nunca termine

Essa moda é passada e trocaram a vitrine


E as coisas se estabilizam e logo decaem

As poucas esperanças regadas se esvaem

A minha pobreza se tornou torturante

Estou em casa, mas sou um imigrante


Com quanta dor se sustenta um homem?

Esses sonhos que vêm, brilham e somem

São motivo de minha tragédia grega

Quanta escuridão tornaria minha visão cega?


Porque não vejo um palmo à frente

Meu futuro se tornou uma charada incoerente

E as peças não se encaixam, a sorte sumiu

Como se faltasse chama ao pavio


Como se minhas palavras não tivessem valor

Como se no Nordeste não houvesse calor

Como se minha história não dissesse nada

Como se eu fosse uma alma condenada


A viver no mesmo looping

De nunca mais subir no ranking

Porque, acredito ter perdido o feeling.


E esse erro parece letal

Como se fosse proposital

Em suma, meus neurônios apodrecem

Fiéis na crença de que eles merecem


Alguma mísera recompensa

Por terem aguentado toda a ofensa

O abuso, o descaso e a descrença

Resultando em um quadro de doença


Que foi apontado na minha sentença

Com crueldade e clara indiferença

Como determinante, sem discussão

E se foi o esforço de anos numa única sessão


Essas palavras pairam no ar ao meu redor

Respiro diariamente esse rótulo constrangedor

Por isso meus pulmões sibilam

Por isso minhas pernas vacilam


Eu fui obrigado a enterrar

Minha bela felicidade

E eu não pude chorar

Porque eu era de outra cidade


E precisava ir embora cedo.

De herói a vilão desse enredo

Morri junto com minha alegria

Tornei-me alguém que não conhecia


Perdi tudo o que se poderia perder

E que saudade cruel de ter


A minha felicidade clandestina.


Cayo Rayan

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