Liberté, égalité, fraternité? (Crônica)

 

Cayo Rayan


.Crônica.

Liberté, égalité, fraternité?

Talvez eu nunca tenha a liberdade que eu tanto sonhei quando criança.

Em tempos mais simples e mais coloridos, o mundo era um espaço de possibilidades infinitas e eu, genuinamente, acreditei que o teria na minha mão, como os meus pais pareciam ter.

Eu sonhei com tantas profissões, com tantos caminhos, com tantas felicidades e isso foi bom, pois, pelo menos por alguns curtos anos, minhas esperanças foram mantidas vivas pela incerteza do futuro e pelas promessas de político de que as coisas estavam melhorando, de que em algum momento tudo seria melhor.

Mas, com o passar dos anos, o mundo me mostrou uma nova face: duro, complexo e indomável. Tanto, que eu já me conformei de que, muito provavelmente, eu não vou mudá-lo. Com muita persistência e trabalho duro, talvez eu consiga mudar o meu mundo e, momentaneamente, isso já me parece algo do qual eu deva ter orgulho, caso consiga.

 A liberdade com a qual eu sonhei é um conceito tão intangível quanto a sorte de ganhar na loteria, pois nós a vendemos a troco de pão.

Todos os dias nós acordamos cedo pra ir a um trabalho, que muitas vezes não gostamos, lutando por um salário, que mal cobre as despesas e tentando nos convencer de que está tudo bem ter uma vida simples, porque ela não é pior por isso.  

Mas, pra mim, ela é. E talvez eu pareça mal-agradecido por isso. Mas tudo é tão controverso.

Onde está meu livre arbítrio quando eu percebo que não concordo com uma regra porque ela só existe por controle, para manipular comportamentos e cercear a autonomia dos indivíduos? Se eu não votei no atual governo e não acredito na atuação do Estado, por que eu não posso me ausentar do imposto de renda? Se a vida é meu bem mais precioso e o meu tempo é tudo o que eu tenho, até que ele acabe, por que eu sou obrigado a vendê-lo por tão poucos trocados?

O mesmo sistema que me cerca é o mesmo que determina meus comportamentos e alimenta meus gostos. E é tão plausível que alguém com a minha cor, com minhas origens e com as minhas vivências, tenha os meus problemas.

E algo em mim insiste em dizer: Isso é tão previsível que chega a ser maçante.

É tão possível conhecer alguém pelo contexto em que ele vive, que as dores da alma aparecem como cicatrizes visíveis. Nós esbarramos na ideia do público e do privado a cada fala emitida e nós nos moldamos pra caber no sistema, porque ele é o sistema e você só pode escolher não participar se quiser passar fome e carregar o fracasso nas costas.

O sistema roda pela grana e a grana roda o sistema e as pessoas. Tudo poderia se resumir a isso, se não fosse a pouca humanidade que nos é permitido ter ao final de um dia extenuante de trabalho, quando já cumprimos tudo o que deveríamos e podemos voltar à configuração de fábrica.

Nós aguentamos as mazelas do cotidiano e a dor da nossa miséria camuflada, pela esperança de momentos alegres, em um futuro distante, que muitas vezes nem acontece. A cada um cabe algumas poucas possibilidades de decidir e buscar uma vida que lhes faça sentido, mas todas as escolhas são predefinidas e nunca nenhum mortal fará algo realmente novo, exceto pela humanidade que nos permeia.

- Se você for até a Lua, ainda não será especial; já fizeram isso.

É estranho e inevitável buscar algo que nos diferencie, quando todos os nossos passos já foram trilhados milhares de vezes. A única coisa que me diferencia dos meus antepassados é que essa é a minha vez de caminhar. Eu estou aqui agora, pela primeira e última vez e isso me assusta na mesma medida em que me conforta.

A verdade é que, sem humanidade, sem laços e sem sentimentos, nada nos diferencia dos demais ou de qualquer ser que já tenha vivido como um Homo sapiens.

Liberté, égalité, fraternité”… palavras antigas que continuam sussurrando promessas ao vento, enquanto caminhamos em direção a um amanhã que ainda não nos pertence. E talvez, no esforço de buscá-las, resida a única liberdade que nos resta.

 

Cayo Rayan

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