Carta para Sinop (Crônica)
.Crônica.
Carta para Sinop
Querida Sinop, há algum tempo que eu saí das tuas terras quentes e não
tenho previsão de quando voltarei. Ainda receio pisar meus pés no que foi,
antes de tudo, um dos maiores desastres da minha vida.
Já dediquei poemas de amor à minha cidade natal, no interior do Ceará,
mas pra você eu só vou dedicar uma prosa simples, pois ainda guardo
ressentimento. Essa prosa será sincera, porque eu decidi que você merecia um texto
cru e, além de tudo, eu já não preciso me esconder atrás de um álter ego ou de
conceitos poéticos, ainda mais quando vou narrar algo do qual todos já tem
conhecimento.
Você não é uma pessoa, mas eu vou escrever como se fosse. Você é um
lugar, uma cidade com pouco mais de 200 mil habitantes pra ser mais exato.
Contudo, querida, hoje, você não representa um lugar, você representa um pedaço
perdido da minha história. Um pedaço recente, doloroso e incompleto de mim e do
que eu já almejei ser.
Bela Sinop, você tem a infraestrutura e o PIB, mas te falta o carisma e
a acessibilidade.
Quando eu cheguei eu era jovem e você me fascinou por um tempo, até que
eu me desse conta de que, como todas as outras cidades nas quais eu morei, você
tinha defeitos.
Eu nunca me acostumei à forma como o nome do seu Estado era Mato Grosso,
mas em você não havia mato algum, só tinha soja. Soja, milho e algodão — teus filhos prediletos. Foram eles que te fizeram crescer, mas também te arrancaram a pele, deixando teu chão nu e exausto. Grãos que vêm de uma terra despida, pulverizada com agrotóxicos
e fertilizantes, que também se tornariam parte de mim quando passei a consumir
sua água.
Mas eu não estou aqui pra citar as mazelas e os seus defeitos, porque você
foi uma fase relativamente boa da minha vida, apesar de tudo. Você se tornou
boa quando eu percebi que eu poderia domar você, quando eu me acostumei com
seus detalhes e com seu clima seco. Você se tornou um refúgio porque, em você, eu
poderia ser quem eu não podia na minha cidade natal. Você se tornou um refúgio
porque eu acreditei estar vivendo exatamente o que eu sempre fui destinado a
viver.
E eu fui feliz, mesmo que por momentos curtos porque felicidade de pobre
dura pouco.
Até que tudo acabasse em chamas e eu passasse a te odiar.
Mas eu ainda guardo boas lembranças e tenho o peito apertado sempre que
me lembro do balanço daquela praça perto da minha casa, o mesmo que eu combinei
comigo mesmo que usaria sempre que estivesse triste e com saudade de casa, pois
na minha casa tinha um parecido e aquilo era o mais próximo que eu estaria do
meu estado, estando a mais de dois mil quilômetros dele. Também me lembro bem
que eu plantei girassóis naquela praça, perto do meu banco preferido. Lamentável
que eu não pude vê-los crescer.
Eu ainda sinto falta de caminhar pelas suas ruas retas, enquanto eu ia
ao mercado acompanhado pelo meu fiel escudeiro: meu cachorro Totó, um vira-lata
que fazia a guarda da minha curta caminhada.
Ainda sinto falta de ser alguém novo numa cidade nova. Meu anonimato era
um presente na mesma medida em que meus estrangeirismos foram um problema, não
pra mim, mas pros que me cercavam.
E, quando o céu ficou cinza e o ar intragável, porque era temporada de
queimadas e todo mundo decidiu atear fogo em tudo, eu comprei cinco novos vasos
de planta pro meu terraço. Como se alguns cactos e suculentas a mais fossem salvar
o mundo.
Bela, longínqua e escaldante Sinop. Você me viu percorrer diariamente
suas ruas de bicicleta. Você viu uma série de versões minhas, dentre elas a
mais sonhadora, a mais excêntrica e a mais viva. Você me teve, por cinco anos,
como se não me tivesse e eu amei isso de ditar minhas próprias regras, até que
meus atos se voltassem contra mim.
Eu ainda me lembro daquele percurso em que eu caminhava toda tarde, em
especial quando foi ano novo e eu estava correndo pra espantar a tristeza de
estar sozinho.
Eu me lembro da ciclovia que eu percorria todo domingo enquanto pensava
em um certo alguém. Um namoro curto que já começou com sinais claros de
desgaste.
A música era animada, mas meus pensamentos sempre foram dúbeis.
Meus sonhos eram meus, mas minha história não.
Por vezes eu me senti sortudo e logo em seguida me senti azarado.
Eu dei o meu melhor, foi um melhor decadente,
eventualmente adoecido e imaturo, mas foi o meu melhor. E eu não colhi nada
disso.
Eu esperei por noites e noites pelo momento em que tudo aquilo valeria a
pena. Eu sonhei com amor e não tive nada além de discórdia. Eu vi rostos tão
lindos, mas meu coração fraquejou.
Eu tive tudo o que alguém gostaria de ter, menos a saúde, a grana e o
reconhecimento.
Eu investi tudo o que eu poderia investir: meu tempo, minha vida e meus
objetivos.
Mas, pra você, nada bastou.
E talvez nada nunca baste.
Por isso eu fui embora.
Não porque eu quis ir, mas porque eu precisei. Você fez a escolha e a
mim restou as consequências de uma vida perdida, de um adeus antecipado e de um
trauma evidente.
Eu morri mais de uma vez durante o processo, mas o meu enterro foi
naquele dia.
E agora eu olho pra mim e vejo um cadáver vivo. Sem sangue, sem força e
sem sonhos.
Eu me levanto, eu como, eu leio, eu treino e eu durmo. Todo santo dia,
todo mísero momento, pensando em você.
E de como você me traiu e de como você me deixou ir.
Querida Sinop, você não é uma cidade, você é a história perdida de um
versão minha que não existe mais.
Sinop, você ouviu meus pedidos e negou cada um deles.
Portanto, eu te escrevo esta carta como resposta. Direi aos quatro
ventos que você me derrotou, talvez fosse isso o necessário, mas ainda dói,
ainda dói e ainda dói.
Eu desejo a você o contrário do que você me fez e, com isso, tento ser
evoluído.
Mas ainda dói, ainda dói e ainda dói.
Com saudades e ressentimentos, Cayo.

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Sinto muito menino! Espero que eles reavalie. Não foi algo ético. Mas você parece ser um bom estudante. Faltou com ética. Mas podia dar uma punição sem fazer você perder a vida. Você não é o primeiro jovem a fazer besteira na vida.
ResponderExcluirCaio.Um absurdo o que estão fazendo com voce no último semestre disnte longos anos de edtuem uma faculdade de medicina. Talvez por inveja deste profissional que o acusou de uma falta de respeito com voce. Porque isso ? Inveja? Tantos médicos já formados matando pacientes em hospitais famosos ou clínicos clandestinas. Não deixa que te sacrificam por algo tão inocente que voce fez e psra se próprio por falta de incompetência destes profissionais de postos de saúde e outras unidades de saúde onde ficamos até 8horas esperando atendimento enqto os médicos estão dormindo ou no celulares deles vendo jogos...É um absurdo sabendo s faculdade o qto boce é um excelente aluno. Corre atrás fox seus direitos e até fora do Brasil se for preciso.
ResponderExcluirVocê nao é o primeiro nem o último a chegar atrasado e a se receitar. Alem disso, confrontar preceptores é preciso, eles sao abusadores. Parabéns. Contrate um bom advogado e mostre a esses vermes o que é justiça. Nada é por acaso, querido.
ResponderExcluirNossa, que carta profunda! Que riqueza de detalhes e um misto de emoções, que ao mesmo tempo que me fez amar, me fez também ter ressentimentos por Sinop!
ResponderExcluirEspero que reconsiderem! Deus abençoe sua vida e seus projetos!
Arrepiei quando li o texto, Caio Rayan você é um escritor nato, em algum momento achei que estava diante de um texto do Glaciliano Ramos, a Universidade precisa se redimir, e reconhecer que errou também. Desejo do fundo do meu coração que você possa conseguir reverter essa situação. Excelente texto.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSuas palavras são profundas e apresenta muito sentimentos, nas não se sinta incapaz ou culpado por um erro jovial que poderia ser corrigido com sabedoria dos seus instrutores , pra isso eles dão aulas de ética profissional, mas para e olha em sua volta que a culpa não é somente sua infelizmente o sistema atualmente do Brasil age assim, punie severamente oque e corrigível e inocentes e absorvem e apoiam o incorregi vel, mas continue lutando, aprenda com o passado com muita resiliência no presente pra ter um futuro brilhante e reconhecido na história, quem tentou te apagar vai se surpreender, acredite Jesus te ama ele vai te levantar.
ResponderExcluirCaso Rayan no meio de sua linda carta recebi uma notícia triste que me deixou impactada de outro assunto. Me sensibilizar com você.
ResponderExcluirVocê é muito inteligente e temdiferencial de poder e saber interpretar sua dor como poucos.
Espero e vou rogar a Deus que você se realize como médico e escritor.
Você definiu sua profissão muito novinho e imaturo foi morar distante de sua família. Amadurecer longe de seu berço foi um desafaio.
Para mim, você não fez nada de grande ofensa que não pudesse ser revisto, punido com advertência e perdoado.
O ego alheio ofendido de outros que têm o poder fazem estragos em muitas vidas.
Se recupere, siga adiante firme e lute pelo que você mais deseja.
Querido Cayo Rayan, chorei ao ler sua carta. Como acadêmica bem sei como o mundo universitário é abusivo, me coloquei em seu lugar senti os pedaços cairem, perda irreparável, anos perdidos. Entendo que errou, mas não é o primeiro e nem o único, nada que não possa ser resolvido sem necessariamente arrasar com a vida do ser humano. Que Deus te fortaleça nesses dias difíceis, desejo de coração que a justiça seja feita e seus sonhos sejam reavivados. Que a bondade de Deus prevaleça sobre a sua vida.
ResponderExcluircayo,
ResponderExcluirLi a sua carta, todo erro tem a sua consequência… você mesmo disse que sabia que era errado o que fez. Considere procurar ajuda profissional.
Seu canalha! Que coisas horríveis te aconteçam esse ano de 2026!
ExcluirCarlos Eduardo, começando por você, um profissional que ainda não aprendeu que nome próprio é com letra MAUISCULA. Procure ajuda profissional também, essa "ajuda" que vocês que se dizem profissionais tanto falam e nunca ofertam para os alunos.
ExcluirUma pergunta pra UFMT...
ExcluirInstituição os senhores tem atas, agendas ou algum registro de atendimento ao estudante Cayo, antes desse episódio?
Pois ele é um jovem e se os amigos comenta do isolamento e afastamento dele, do nervosismo etc durante o estágio os senhores como adultos notaram, chamou ele antes pra orientação antes dele sentir tão abandonado pela instituição. Tem registros de assistência estudantil? Acho que um jovem de 23 anos tão estudioso não pode perder metade da vida assim!
Professores universitários de Medicina são vermes narcisistas que gostam do pequeno poder que detêm sobre o aluno, vide o maldito Carlos Eduardo, que comentou espezinhando o seu trauma e a injustiça que você sofreu (sim, Carlos, você é professor universitário, conheço a sua laia). Espero que você processe a UFMT por isso, além da diretora da faculdade de Medicina no Campus Sinop, o pró-reitor da UFMT, o preceptor que te denunciou e, com certeza, distorceu e exagerou os fatos, além de conseguir reverter esse absurdo administrativo judicialmente. Sinceramente, eu sou um cara de esquerda, mas torço para o desfinanciamento cada vez maior das universidades públicas, de modo que esses professores paguem caro por todas as vidas que já destruíram. Monstros psicopatas! Quero ver cursos fechadas nessas universidades, quero ver hospitais universitários privatizados e professores universitários demitidos ou precarizados.
ResponderExcluirVamos lá, terá que expulsar cerca de 80% dos acadêmicos, na maioria das UBS e UPAs os internos usam carimbos de seus supervisores e prescrevem medicações, isso é algo descarado, se está certo ou errado, não é a questão, expulsar um aluno com rendimento exemplar, por nitidamente algo não declarado e possivelmente pessoal, é muita hipocrisia em um país corrupto a favor da parte da balança com.mais poder.
ResponderExcluirJamais! Os filhos de ricaço da minha universidade sempre se safaram em tudo!
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