Delírio Febril (Poema)
Delírio Febril
Se traçássemos uma linha
Pro quanto dessa conta é minha
Dentre tudo o que fiz
E dentre tudo o que sofri
O maior prejuízo foi o meu
Por isso, de suas leis eu sou ateu
E de suas palavras eu só escuto
Meias verdades e um ego absurdo
E pensar que a maior decisão
Foi tomada por gente de baixa visão
Que nem sequer me conhecia
Numa sala na qual eu não estava
- Eu sei o que eu vi
E eu sei o que eu ouvi
Porque eu estava lá,
Você não
Você insiste em me dizer
Que eu procurei, que eu causei
Como se isso me desse prazer
Como se eu soubesse, mas não sei
Como se alguém gostasse
De ver a própria ruína.
Como se eu quisesse
Sentir dor e tristeza genuína.
Contudo, o mundo seguiu igual
Rodando, rodando, rodando
Duro, selvagem, injusto e desigual.
E eu sigo desvendando
Quão longo um luto pode ser
O quanto uma imposição pode doer
E o quanto o miúdo tem que se calar
Pra que a corda não volte a arrebentar
E todos sabem que as cordas,
Assim como as cercas,
Só quebram no canto mais fraco
E arrastam alguém pro buraco.
Lamentável que eu estivesse
Envolvido, tristemente envolvido
E agora, de toda a minha prece
Um pedido há de ser repetido
Eu quero minha vida de volta
Assim como uma árvore brota
Mesmo depois da machadada
E que dê fim a minha revolta
A esse sentimento amargo
Que se têm depois da injustiça
Quero que tire de mim o embargo
Que regue bem a hortaliça
E que lubrifique a dobradiça
Pra que haja novo crescimento
Sem o ruído do meu pensamento
Sem a sentença do meu tormento
Sinto-me como cavaleiro cruzado
Que, depois de meio-mundo andado
Acampa, frente à Terra Santa
Adoecido pra luta derradeira
Mas com sonhos tão bonitos
De tempos tão bem vividos
De um mundo sem tanta dor
De uma vila sem o inquisidor
Um delírio febril
Tão doce quanto impossível.
Belo como um campo primaveril
Só que num sonho inconcebível.
Cayo Rayan

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