Conselhos do Além (Poema)

Cayo Rayan


 .Poema. 

Conselhos Do Além 


Não esperava te ver por aqui

O que uma bela moça 

Faria, tarde da noite, no cemitério? 

Diga-me o que busca, doce mulher


Então, você já ouviu as notícias 

Mas, com malícia, quer ver a perícia

Pra agora quer saber das minúcias 

Pra entender as circunstâncias 


E, além de tudo, menina

Me pedes um conselho? 


Muito bem, se quer saber 

Saberá antes mesmo de perceber

Eu não pediria um conselho

Pra alguém que lembra o coelho


O mesmo de Alice, sempre atrasado.

Um espírito ruim mentiria, mas eu digo

Que o amargo perdura bem mais 

Que o doce, que logo se desfaz


Assim como uma perda dói tanto

Que se transforma em pranto 

Assim como um corte 

Quando certeiro e forte


Dará trabalho ao teu anjo da guarda

E haverá de ter boa sorte 

Quando sangrardes por uma jarda

Por um descuido, uma morte. 


Como eu, muitos outros morrem

Tantas vezes em vida, 

De quantos males padecem 

Mas o meu foi causa atrevida


Tanto se sonha quanto se pode

E quando se vive com propósito

Existe uma sequência que eclode

E seu crescimento é implícito 


Só não faça o que eu fiz 

Se puder, corte fora sua inocência

Seja doce, eficiente, perfeita atriz

Manifeste a sua resiliência


Mas evite qualquer resistência

Não sangre, não toque, não fale

Quando estiver em abstinência

Porque rebeldia equivale


A convergência.

E a dor de uma história cortada 

Terá de ser suportada 

Como se fosse sua imprudência.


Eu ainda me lembro de tudo 

Em especial do cheiro, contudo

Aquela causa não era minha 

Fiz minhas escolhas, final da linha


Já ouvi dizer que foi minha culpa

Que não havia outra saída

- Engula tudo e se entupa. 

Só não esperava morrer entupido


Você não ouvirá uma desculpa 

Não vindo de mim, não assim

Eu era só um garoto

Quando morri em vida


Quando essa confusão foi "resolvida"

Quando o mundo se tornou amargo

Com uma narrativa manipulada

Quando tudo ficou a meu cargo


Eu morri por anos de sonhos 

De uma história interrompida


Eu tinha vinte e poucos anos

Quando fui enterrado 

Pela primeira vez

E na minha lápide consta: 


- Foi sem querer, 

porque era cedo 

e queria ficar.


Mas, doce moça, 

Escute meu conselho 

Que ressoa deste caixão rígido


Eu morri, mas você não

Eu morri e não voltarei

Eu morri e foi morte matada

Eu morri porque se morre 

Quando se perde pra si mesmo


Eu morri porque eu era jovem

Por isso não sabia viver 

Por isso não sabia morrer

Por isso não pude evitar 


Eu morri, e essas flores 

São infinitamente mais cheirosas 

Que minha carne


Eu morri e minha pele branca 

É cadavérica

Eu morri e meus olhos fechados

Não são de sono 


Eu morri e meu descanso

Será infinito, mas inconformado

Porque me mataram tão cedo,

Tão brutalmente.


Dor, tristeza e rancor

É tudo o que sinto 

Desde que me puseram aqui.


E o meu espírito se revolta

Numa assombração silenciosa

Eu morri, porque era vivo

Mas você não morreu, menina


Viva, viva e viva mais um pouco

Seja livre, cante, pule

E não conte a ninguém 

Tudo o que eu te disse


Porque é um consenso do subsolo

Não dar conselhos aos vivos. 


Cayo Rayan

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