Ele Me Disse Que .Poema.
.Poema.
Ele Me Disse Que
Meu alter ego está com defeito
Ele não quer continuar desse jeito
Sendo meu representante perfeito
Falando tudo o que eu quero
Mas ele vai voltar atrás, eu espero
É que houve um bug enorme
Entre autor, obra e alter ego
E ninguém quer agir conforme
Era antigamente. Parece que estou cego.
De que nada faz sentido, estou certo
Meus poemas são sobre quem?
Eu, ele, nós, vós, eles ou ninguém?
Agora eu, Cayo, que estou tendo que falar
Porque meu alter ego surtou de se calar
Ele cansou de me representar
É que tem muita gente julgando
E ele me disse que não está aguentando
Ser uma haste de ferro pra continuar
A declamar poesia, sem se machucar
Com o bater das ondas violentas desse mar
E a partir de hoje tudo vai ser por ele
E ele me disse que
Ele cansou de poemas como aquele
Sobre amor na visão de um mero moleque
Ele cansou de ser genérico pra não chocar
Ele me disse que quer falar sem calcular
Ele quer ser livre pra se expressar
Mas tem poemas sobre relacionamentos
E ele teme que isso traga tormentos
Porque não quer parecer um ex surtado
Me disse que quer ser um grande escritor
Mas está lendo um livro com temor
Fernando Pessoa é um baita senhor
E ele está se achando um poeta ridículo
Acha que não seria nem um bom discípulo
E ele me disse que sabe ler corações
Porque o ensino fundamental foi um terror
De bullying, agressões e dor
Então ele começou a escrever pra conversar
Já que não tinha ninguém com quem falar
Me disse que ama escrever
Que criou uma série de válvulas de escape
Pra ser autossuficiente, não um covarde
Mas tem gente querendo julgar, prender
E isso pode fazê-lo acumular até morrer
Me disse que tá cheio do mais do mesmo
Arroz com feijão só é bom com torresmo
E ele não pode ousar em nada
Por que tem gente na guarda
Pra destruir na primeira má jogada
Me disse que tem vergonha dos poemas
Porque eles são sobre os dilemas
De um garoto sem sal e sem açúcar
Quem ia querer saber dele nesse lugar?
Ele não tem nada pra acrescentar
Me disse que não quer declamar poesia
Porque ela está sendo, pros críticos, cortesia
Porque ninguém liga pra minha dor ou alegria
Só que de duas uma, ou posto e aguento
Ou escondo e nunca sairei do esquecimento
Cheguei no ponto em que
Talvez tenha talento, mas não o cheque
Não ligar pros mini escândalos é preciso
Porque pra alguns eu vou soar conciso
Pra outros eu só deslizo
Só que eu tenho que fingir
Porque eu tenho um sonho e vim lutar por ele
E eu disse: Eu vou que lá é melhor que aqui
Aí eu vim morar sozinho longe de casa e Dêle
Eu tô fazendo tudo dar certo com esforço
Só que eu tenho que bancar o bom moço
Pra não escorregar no julgamento dos outros
Não quero dar corda pra quem ama alvoroço
Pros que queriam me devorar como monstros
Só que bancar o bom rapaz custa caro demais
Quando você claramente não é comportado
Quando você quer ter sua fase de revoltado
De piercing e cabelo pintado
Mas não pode porque é vigiado
E na primeira brecha vão te chamar de noiado
E ele me disse que esse é o problema
Meu alter ego não quer ler um poema
Que ele sabe que é arriscado
Porque ele conhece minha vida, meu esquema
E quer se manter tranquilo, não julgado
Meu universo ficcional está ruindo
Sem coesão tudo acaba em um lindo
Caos. Em que autor é obra
E acha isso uma péssima manobra
Porque a plateia só tem cobra
E ele se confunde em três pessoas diferentes
Uma é ele mesmo e as outras são versões
Ele criou as duas sem ser em acidentes
Ele estava ciente e se adaptou às estações
Enfim, refém das instituições
E no fim meu alter ego não sou eu
Nem ele é a obra
E ele nem leu o poema que pedi, esqueceu
E meus poemas são cortados como sobras
E eu sou ninguém, também
E no fim, eu não disse nada de mim
Porque eu quero que seja assim.
Não posso ignorar a minha intuição
Mesmo que não resista à provocação
E ele que me disse isso, não eu.
Cayo Rayan

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