A História do Senhor Personagem .Conto.

 

Cayo Rayan

.Conto.

A História do Senhor Personagem

Esta é a história do Senhor Personagem.

Quem é ele? Eu não sei, ele já estava aqui quando eu cheguei.

Eu me disse que é mestre de malandragem e que usar primeira pessoa é perigoso pra quem tem inimigo que não é ocioso.

Senhor Personagem é um corvo. Ele não é ninguém especial, nem tem nada de especial, é só uma ave comum, normal que, num dia qualquer, esbarrou com uma árvore e se encantou.
Galhos delicados, madeira leve, flores com um perfume tão delicioso e tão convidativo... Senhor Personagem não encontrou só repouso e abrigo do sol, ele estava acolhido numa das mais preciosas e mais generosas árvores que já tinha encontrado. Estar num daqueles galhos era como estar num farol, tudo ao redor era pequeno e toda a grandiosidade na qual estava pousado fazia aquele humilde pássaro se sentir como uma nobre ave de rapina. Por isso, ele lá ficou.

O ninho era alto, era seguro, e o corvo, imaturo, mas tudo ia bem, até que, um dia, a árvore falou:
- Oh, Senhor Corvo, você é tão encantador.
- Obrigada, Senhora árvore, você é muito acolhedora.
- Meus galhos estão ao seu dispor.
- Obrigado! Mas me diga uma coisa.
- Que queres saber, Senhor Corvo?
- Árvore, você é boa, você é a melhor, mas desde que cheguei, eu reparei, sou o único aqui... Por que nenhum outro pássaro pousa em seus galhos?
- Porque eu só deixo pousar em mim quem eu gosto.
- O que eu fiz pra ser do seu agrado?
- Ora, você é meu preferido, sempre disposto a ser uma boa companhia. Corvos não fazem barulho nem dão trabalho, e ainda, Corvo, você tem um tom de verde tão vibrante quando iluminado pela luz do sol... Você parece uma esmeralda que espalha sua luz esverdeada sempre que é atingida por algum rastro de luz.

O Senhor Personagem voou e pousou no solo de frente para a árvore e, sob a luz fervente do sol do meio dia perguntou:

- Assim, senhora Árvore?

- Oh, assim mesmo, senhor corvo, assim que a luz bate no preto-esverdeado das suas penas, ele se espalha e se realça, brilhando como uma joia!

O Corvo, que nunca tinha ouvido um elogio tão doce, ficou extasiado. Num pulo, ele voou em direção à árvore e a abraçou com suas asas. – Oh, Árvore, você vai fazer eu me apaixonar por você. Por favor, chame-me de Senhor Personagem, esse é meu nome.

A Árvore riu.

- Senhor Personagem? Mas que personagem é você?

- Eu sou o Senhor Personagem, o corvo.

- Não. Personagem pode ser o que a gente quiser, recordo-me que já presenciei alguém explicar isso uma vez. Eu era só uma sementinha na época, mas eu me lembro bem. Senhor Personagem, responda-me, por favor, você pode ser quem eu quiser?

- Bem, eu não me lembro de quem me deu esse nome, nem do propósito dele, mas acho que se eu me chamo assim, faz sentido que eu possa ser quem eu quiser.

- Você pode querer ser uma árvore também, Senhor Personagem? Eu prometo te dar lar para sempre, suprir-te com as flores mais cheirosas e os frutos mais deliciosos que comerá na sua vida. Você nunca mais terá que comer insetos, nem voar para lugar algum, porque você será meu par. Eu serei a sua árvore, você será a minha, e nós seremos um casal perfeito para sempre.

- Senhora árvore, eu não sei se posso atender a suas expectativas, mas quero tentar, pois sua proposta me deixou muito impressionado, eu não poderia ignorá-la. Flores e frutos para sempre? Isso parece o paraíso!

- Oh, Senhor Personagem, eu te darei tudo o que você me pedir, se você se tornar uma árvore que nem eu. Vamos, mude rápido, cresça logo e frutifique comigo.

- E o que eu faço? Diga-me, e eu farei.

- Pegue um dos meus frutos verdes, eles já têm sementes, coma tudo, em seguida coma terra e beba água. Depois é só ir para o sol e esperar que seu poder de personagem faça o resto. A semente vai crescer e você será uma árvore linda, pode acreditar.

Mal a Senhora Árvore terminou de falar, o pássaro fez exatamente o que lhe foi solicitado.

- Que estranho!!! Tem um esqueleto de pássaro enterrado aqui. – O corvo falou, enquanto escavava a terra a fim de comê-la. 

- Oh, Senhor Personagem, não ligue para o que a terra já enterrou. O subsolo é um outro mundo, e você vai poder conhecer tudo o que quiser dele quando for uma árvore como eu.

- Mal posso esperar para que isso aconteça!!! – disse o corvo, antes de mergulhar o bico na poça de água.

- Depressa! Para o sol agora! Isso mesmo, você é um pássaro muito especial, é único para mim!!! – exclamou a árvore.

E o pássaro passou a cumprir aquela tarefa todo santo dia. Sempre a mesma fruta amarga, sempre dois ou três punhados de terra e generosos goles de água. Em seguida, era sol. Só sol o dia inteiro. A pobre ave estava, aos poucos, perdendo as penas pelo excesso de calor. Mas a cada pena de tom negro-esverdeado que caía, a Senhora Árvore comemorava e torcia pra que o dia em que o Senhor Personagem, finalmente, conseguisse virar uma árvore não tardasse.

Porém o Senhor Personagem não era burro, ele percebeu que estava adoecendo, sabia que as tentativas fracassadas que se acumulavam eram um péssimo sinal sobre a veracidade do seu suposto poder de personagem, que o transformaria em qualquer coisa. Mesmo assim, ainda que doesse ficar horas seguidas no sol, mesmo que suas penas estivessem se desfazendo, ele sabia que, no fim da noite, um bom galho o esperava. A Senhora Árvore era uma pretendente tão sublimemente dedicada, que o corvo não se importava em se machucar, desde que no final do dia ele pudesse ter um abraço caloroso e uma infinidade de flores para cheirar.

Só que a Senhora Árvore começou a perder a paciência.

- Quando, Senhor Personagem? Quando? – Ela resmungava. – Você ainda não é nem um brotinho ainda. Apresse-se, pois eu não suporto a ideia de viver mais tempo sem ter um par para frutificar.

- Querida Árvore, eu tenho feito tudo o que posso.

- Tudo bem, mas não demore muito. Essa relação de troca é totalmente injusta, enquanto eu te dou tudo o que você precisa, só recebo promessas vazias em troca. Está ficando muito difícil para mim continuar acreditando em você, Senhor Personagem.

- Não, Senhora Árvore! Eu preciso do teu abraço, eu não consigo mais voar para longe, nem caçar minha própria comida e, mesmo que eu conseguisse, como eu iria embora, se meu coração está tão decididamente fincado ao seu? Eu te amo, Senhora Árvore, e o amor resiste a tudo. Espere e verá que eu vou me tornar o que eu preciso ser para te fazer feliz.

- Espero que sim. Mas não demore muito, ou eu vou desistir de você.

A palavra desistir magoou o Senhor Personagem. Como uma ideia tão cruel poderia ser dita num tom tão normal pela Árvore? Como ela, que, todas as noites, cantava e recitava poesias para o Senhor Personagem poderia ser capaz de abandoná-lo? E como o corvo, que nem voava mais, conseguiria sobreviver tempo suficiente para achar outra árvore frutífera naquele deserto?

E foram dias e noites com o Senhor Personagem estendido ao relento pedindo para que o seu poder atendesse ao seu pedido logo.

- Senhor Personagem, acho que encontrei nosso erro! Estamos fazendo isso errado. Árvores comem terra e água mesmo, mas você precisa de algo mais forte, mais sugestivo, para que o seu poder entenda o nosso desejo. Você precisa comer madeira! É exatamente isso que precisamos. Vamos, coma os talos de árvore do seu ninho, você não vai precisar dele, porque ninho é coisa de passarinho, e você será uma bela árvore em breve.

O pássaro fez o que a árvore pediu, mas aquela refeição não lhe caiu bem.

- Querida, eu acho que eu vou...

- Não! Não faça isso! Oh, Corvo! Como você pôde regurgitar a madeira? Isso é tão ofensivo! Você tem nojo do material que me constrói? Acho que você estava me enganando esse tempo todo, senhor Corvo, você mesmo que arrancou suas penas, não foi parte do processo de virar uma árvore! Agora eu sei, eu posso ver!

- Não, Senhora Árvore, por favor... Tentarei novamente. Nunca ouse pensar que eu teria nojo do que você é, nunca! Logo serei uma árvore, eu sinto.

- Não! Você me ofendeu profundamente! Oh, saia daqui, vá embora. Nunca mais darei nenhum fruto para você, seu mentiroso! Espero que pague pelas suas mentiras.

O corvo entrou em pânico.

Implorou para que a Árvore reconsiderasse. – Você não pode me deixar, não depois de todas as músicas, os poemas, os frutos. Você disse que me amava e agora me dispensa assim, como?

- Você disse que logo seria uma árvore e já se passou muito tempo e nada aconteceu. Você é a criatura mais mentirosa e traiçoeira que eu já encontrei nesta vida. Saia de perto de mim!

- Mas eu te amo!

- Mas eu não! Eu nunca amaria uma criatura tão minúscula como um passarinho. Eu amei a árvore que você me disse que seria.

Então o corvo ficou tão enfurecido que correu e picou repetidas vezes a casca da árvore. – Maldita! Maldita! Maldita! - Golpes secos na madeira dura.

O pranto do Senhor Personagem foi derramado na forma de uma violência que fez o bico da ave quebrar. A árvore não emitiu nenhuma palavra sequer enquanto o corvo gemia de dor e se arrastava para longe, sem ter mais o bico nem capacidade de voar.

E foram dias longos sob o sol escaldante.

O Corvo começou a jornada pela sobrevivência buscando água, comida ou qualquer outra coisa que pudesse melhorar o estado deplorável em que ele se encontrava, mas não era tão fácil como antes. O Senhor Personagem sabia exatamente onde achar uma nascente d’água, mas não podia voar até ela, já que tinha perdido quase que totalmente as suas penas.

A fome foi algo que começou a pesar depois de um tempo. Que falta faziam os frutos, da Senhora Árvore! Que falta faziam aquele ninho e aqueles galhos. O pássaro estava convencido de que nunca mais teria a chance de sentir um aroma tão doce quanto o que emanava das flores da Árvore, e esse temor logo se confirmaria verdadeiro.

Senhor Personagem já não parecia um corvo, parecia uma carcaça. O que restava do pássaro alegre de antes era um corpo depenado, extremamente magro e machucado.

E ele quis voltar para a Senhora Árvore.

- Foi tóxico, foi doloroso, foi mortífero, mas foi alguma coisa. Eu fui feliz, mesmo que por breves momentos. Ah, como eu queria voltar para a Senhora Árvore, mas eu sei que não conseguirei chegar vivo. – ele gemeu de dor e tristeza – Mas se eu não chegar vivo, pelo menos eu morrerei tentando alcançar o amor da minha vida.

E começou a fazer o caminho de volta ao amanhecer, estava estranhamente renovado pelos ares frios da noite e pelos sonhos doces que teve. Sonhos em que ele estava nos galhos da Senhora Árvore, enquanto ela cantava a melodia mais doce e afinada do mundo.

- Oh, Senhora Árvore, olhe para o céu, veja como está estrelado. Meu amor por você é tão grande e tão bonito quanto este céu azul-marinho bordado com grãos de areia. – O pássaro dizia para a imagem da árvore florida.

- Oh, Senhor Pássaro, que benção foi eu ter falado com você naquele dia! Eu só falo com quem eu gosto e que sorte eu tive de ter gostado de você! Agora ande, dê-me seu pólen, vamos fazer toda uma nova geração de lindas sementinhas!

E, então, o corvo acordou.

Foi assim nos três sonhos em que o Senhor Personagem esteve naquela noite.

Ele sempre acordava no momento em que percebia que o paraíso que ele imaginava ser perfeito, na verdade, não era. O paraíso era impossível e decepcionante.

- No próximo sonho eu conseguirei, eu preciso, eu quero e eu posso fazer isso. Esse é o treino que o destino está dando para o meu poder de personagem se preparar para agir.

E voltava a dormir, mais convicto e mais esperançoso.

Só que sonhos acabam com o nascer do sol.

E o sol foi o grande vilão do retorno do pássaro.

Senhor Personagem foi, praticamente, escaldado vivo enquanto se arrastava por entre o capim amarelado até que ouviu um chocalho.

- Eu não costumo encontrar corvos como você aqui pelo solo.

- Quem é você?

- Pode me chamar de Senhora Serpente, corvo. Agora, antes que eu te abrace, diga-me o que te fez estar nesse estado tão deplorável.

- Eu amei uma Árvore, e isso me destruiu. – Ele engoliu seco, vendo a cobra se sacodir com aqueles olhos brilhantes arregalados. – Não me coma Senhora Serpente, eu estou tentando sobreviver e não posso morrer antes de ver o meu amor novamente.

- Sinto muito, meu jovem, mas você não é o único que quer sobreviver por estas bandas. Você sabe o que alguém é capaz de fazer pra sobreviver. Por mais que sua carne seja pouca, eu não posso dispensar essa chance de encher a pança pois, se eu não tomar cuidado, pode ser que eu seja a próxima a estar como você.

- Por favor, senhora Serpente. 

- Prometo que farei tudo o mais rápido possível, pois você já parecer ter sofrido o suficiente com suas próprias escolhas.

E a serpente se enroscou ao redor do corpo frágil do pássaro e o apertou...

Antes da sua vista escurecer, o Senhor Personagem olhou para o horizonte, e ela estava lá! A árvore estava logo à frente, grande e florida, mas estava se mexendo e parecia falar. – O que ela diz? – O corvo se perguntou.

Foi quando ele viu que a Senhora Árvore estava conversando com um papagaio colorido. – Ela deixou que ele pousasse nos ramos dela.

E, antes que não restasse nada além de uma cobra satisfeita, o Senhor Personagem sussurrou, pela última vez, o nome da Senhora Árvore.

...

E essa é a história do Senhor Personagem.

Quem é ele? Eu não sei, ele já estava aqui quando eu cheguei.

 

 

Cayo Rayan

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