Eu Tenho Medo .Poema.

Eu Tenho Medo   .Poema.


.Poema.

 Eu tenho medo


Eu tenho medo de me tornar um adulto culto 

Desses que enchem a boca pra falar de currículo 

Desses que não sonham com o oculto

Desses que se fecham num círculo 

De objetivos secos e efêmeros 


Eu tenho medo de ter um casamento fútil 

Desses que não vale a pena estar casado 

Desses que fazem você se sentir inútil 

Porque cada um vive sua vida separado 

Camas de casal por mero enfeite 

Em vidas unidas por negócios 

Sexo sem um verdadeiro deleite 

Companheirismo entre dois sócios


Tenho medo de perder o que me faz especial 

Se eu deixar de ser louco, vou ser o que? 

Um adulto como qualquer outro, tudo igual!

Ser o tio que faz piadas natalinas sobre pavê 

Ter uma mente totalmente previsível 

Não, eu não quero nada disso, é ridículo 


Eu prefiro sonhar como eu sempre sonhei

Eu quero me deitar sobre a grama molhada 

Imaginando ser o mais destemido rei

Sempre que chegar em casa gritar: cheguei!

E correr pela sala com meu cachorro

Surtar com as pessoas que eu gosto

Flertar, peneirar até achar ouro 

Entrar num namoro como um estouro 

De felicidade e melancolia 

Gritar, sorrir, sofrer e depois fazer fanfarria


Eu quero ser jovem pra sempre

Até quando as rugas chegarem 

Até que eu apenas relembre

Dos meus amores descrentes 


Porque eu tenho muito medo 

Medo do futuro incerto 

Medo de deixar que meus filhos espertos

Roubem minha juventude

E a que a traiçoeira idade 

Roube minha virilidade

E que o rápido tempo 

Se torne um tormento 


Eu tenho medo 

De quando eu estiver num asilo escuro

Eu olhar pra trás com arrependimento 

De não ter aproveitado o suficiente 

De não ter comido o quente 

Pra chorar pelo frio.


Eu quero ser jovem até quando eu puder ser

Porque quando eu por fim envelhecer 

Tudo que vou ter serão recordações 

De doces paixões e loucas emoções 

De distantes estações 


E eu tenho medo de olhar pra trás com gosto 

De quero mais. De quero um reembolso.

Medo de não me sentir satisfeito 

Medo de deixar meu propósito imperfeito 

Pra me encaixar em padrões retos

Medo de ser um homem ereto 

Com meus caminhos tortos 

Com minha personalidade forte 

Com minha péssima, mas querida, sorte 


Eu tenho medo do futuro

Porque não sou eu que vou escrevê-lo 

Então eu aproveito o presente. Um escudo 

Pra não perdê-lo.


Mas eu também tenho medo de que

Na tentativa de aproveitar 

Eu caia nos moldes rasos de me divertir 

Aqueles em que eu me embebedo até cair 

Indo, em festas estranhas e sujas, dançar 


Mas ainda me pergunto se estou fazendo certo

Se não estou me reprimindo 

Se apenas não erro 

O caminho 

Mas isso é algo que eu tenho que pagar pra ver

Só espero não me arrepender


Enfim, não sei de nada

Só de uma coisa

Que vida é curta demais pra bobagens 

A não ser que sejam divertidas. 


Cayo Rayan


Confira também o vídeo desse poema:



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