Aquela Dança Celestial .Conto.
.Conto.
Aquela Dança Celestial
Era um dia qualquer, exatamente como absolutamente qualquer outro da minha existência, quando eu atendi a um convidativo chamado da janela semiaberta, que implorava para mostrar o exterior oculto atrás de sua madeira velha. Sempre era decididamente focada no seu trabalho de oferecer doces e breves distrações para minhas pupilas todas as vezes em que eu passava em frente àquela simples, mas bela abertura.
Me perdia entre os tons das nuvens, entrava em transe com o canto dos passarinhos e o roçar das folhas coloridas, me evaporava junto à brisa fresca que tocava desejadamente minha pele seca.
Deveria ser uma distração breve, como milhares de outras, talvez alguns instantes a mais pelo fato da chuva estar me presenteando com meu estado climático e espiritual preferido. Mas ao me aproximar da velha amiga sem vida percebi uma coisa incensurável aos olhos do mais despercebido ser humano.
Uma criatura dançava sobre o firmamento. As vestes brancas e também levemente transparentes pela finura do tecido resplandeciam por entre as folhas e encontravam equilíbrio singular por entre o vento e as gotículas de água que transpassavam o céu esbranquiçado.
Não resistia de curiosidade, meus olhos ansiavam por admirar aquele ser angelical de perto, eu iria me aproximar mesmo não tendo há anos uma aura pura o suficiente pra rodopiar na chuva, nem arriscar passos de um balé tão celestial a ponto de não tropeçar nunca nas longas e leves roupas alvejadas pelo orvalho e por mil crepúsculos.
Num passo e eu já estava abrindo a porta, pisando na água corrente e amassando as gramíneas fofas do quintal, para olhar o autêntico anjo que exalava sua plenitude por movimentos agora mais calmos.
Não considerei a opção da minha curiosidade cortar a magia do momento, ou de afastar aquele exemplar de salvação, ou qualquer coisa do tipo, estava hipnotizado.
Olhos abertos, passos gradativamente mais lentos, invasão pelo ânimo do líquido que escorria renovando o meu corpo cansado.
-Dance comigo! É muito fácil quando o céu se abre! Veja. - Vi o mais lindo e verdadeiro sorriso da minha vida, acompanhado por um riso de purpurina tão puro quanto seu semblante dourado.
-Eu não sou um bom dançarino. - Levantei os ombros.
- Já experimentou apenas incorporar as energias que o cercam? É muito libertador.
- Poderia me ajudar nisso? Qualquer liberdade é muito almejada por mim.
Não respondeu, apenas tomou minhas mãos e puxou meu corpo para e direita, em seguida para a esquerda, num movimento básico de dança. Num segundo movimento girou comigo, e senti meus pés se desconectarem do chão.
Estava pasmo, mas maravilhado acompanhado pela pureza em pessoa e ela me tocava como se eu ainda pudesse ser puro como quando era uma criança inocente que não precisava carregar o mundo sobre as costas.
Cada gota da chuva que já cessava foi testemunha do dia em que eu voei como se tivesse asas, se bem que na verdade tinha um par emprestado, não é? Eu também sorria de forma boba encarando a perfeição daquele ser enviado do céu, era a dosagem calculada de força e delicadeza. Uma espada de ouro bordada com milhares de desenhos, cravada de história executaria perfeitamente seu dever.
-Me leve com você.
O anjo me olhou pela primeira vez de forma fixa, aqueles olhos do tom que se confundia com o próprio céu e contrastava com um tom rosado nos lábios, combinando com as ondas douradas que desciam da cabeça. Me colocou no chão.
-Por que?
-Não sei. Só sinto que meu lugar não é aqui. Apenas me carregue no seu seio sobre os campos, eu garanto não pesar nada além do que suas asas já não levantaram.
-É cedo.
-Não, é tarde.
Não obtive respostas, apenas um virar de costas.
Então começou a atrocidade, eu com minha ferocidade não aceitaria aquele silêncio como resposta. Estar colado ao chão que oprime seria insuportável depois de voar. Eu me agarrei nas vestes brancas e fiz o anjo cair. Conseguiria quebrar sua auréola ou morreria antes?
Foi numa luta de cão e gato, rato e sapato que eu segurei as vestes, subi a força e pilotei um voo desordenado por um minuto para, só então, despencar.
De repente a criatura, antes receosa, retorna. Triste me toca, levanta e me encanta. Tinha se arrependido ou se comovido? De certo, tinha cedido.
Aceitou me carregar pelo além até que ouvíssemos o coral, a voz final. E assisti descerem outros cem seres de luz ao meu encontro, nem pedi tal recepção, mas aceitava de coração.
E eu me sentia adormecer enquanto eles desciam para algum lugar, já nem ligava onde me colocavam. Um leito aconchegante, com cobertor abundante, cuidados em reciprocidade naquele buraco, para que enfim dormisse a eternidade e esquecesse a ausência de liberdade.
Então eu acordei num espasmo.
Estava sobre a mesma mesa, deitado sobre livros e um estudo incompleto.
Então o momento de epifania: estava chovendo e eu tinha adormecido olhando a mesma janela do sonho.
Ficção ou lição?
Estaria diante de um sonho qualquer que seria esquecido com o sono da manhã ou uma segunda chance pra recomeçar e mudar minha realidade sem atalhos, sem ilusões?
Não desperdiçaria por nada a magia da segunda opção.
Obrigado, anjo doce, por me salvar.
Cayo Rayan

Comentários
Postar um comentário