Me Imagine Agora .Conto.
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.Conto.
Me Imagine Agora
Eu estou numa estrada, cercado apenas de gramíneas verdes e úmidas, sob um azul vibrante que contrasta com nuvens geometricamente imprecisas, mas divinamente encaixadas.
Eu tenho que andar sempre na mesma direção, e decidir perigosamente qual lado seguir a cada bifurcação.
Sou seguido por cães bravos e tenho que carregar um fardo que vai aumentando de peso constantemente.
Esse caminho é tudo o que eu tenho. É tudo o que eu sou. É tudo o que eu hei de ser.
Eu nunca toco o azul cintilante, porque ele é uma dádiva especial demais.
Minhas forças estão se esvaindo, eu vivo pra caminhar, e caminho pra viver. Todo meu tempo é voltado para a jornada, que apesar de bonita e digna chega a ser transcendentalmente cansativa e monótona.
Vejo outras pessoas caminhando do meu lado, com o mesmo objetivo, com o mesmo pesar, com as mesmas lástimas.
E então eu assisto uma pessoa correr freneticamente para frente, dar um salto e tocar o glitter ciano. O objetivo o puxou para cima até que não restasse nada de ruim, o fardo se refez em asas e a criatura foi agraciada. E eu continuei a mesma jornada, com a mesma dor e agora com um questionamento maluco: Um dia eu serei digno de ter minhas próprias asas, ou terei que me amarrar aos aviões para sentir a mesma liberdade?
-Por que eu não mereço? Se dei cada lágrima, cada gota de suor ao objetivo principal, só não a mesma correria. Por que? Porque eu simplesmente não suportaria.
Estar de olhos vendados é um estado ínfimo de imaginação, ela é a única que me faz voar por alguns segundos, até que se esvaia e não reste nada além da lamúria. Esse é o grande dilema.
Eu sou um trevo de três folhas que sonha com todas as forças ser escolhido pelo destino pra ser especial. Mas não fui atendido e meu caminho parece dar num penhasco logo à frente. Como assim? Talvez eu tenha me poupado demais, talvez dormido no ponto, talvez ido além da conta no descanso. Eu me amei antes do caminho e isso me privou de ser agraciado?
Não sei explicar a força com que me imagino sumir. Um flash na cabeça de uma ação louca.
Tudo é doce, não por essência, mas por açúcar.
Deveria ser mais fácil assim? Sim, mas me tortura. Não consigo olhar a pasta branca quando tenho fome, sem que me deleite da glicose, para, só então, me assustar com as picadas de formiga.
Eu tenho a mesma energia do glitter. Por isso ele se afasta?
Glitter é para os que aceitam se apagar por dentro?
Como apagar a chama que afasta o meu desejo, sem cometer suicídio?
Eu só queria ser especial, ser bom em algo. Mas tudo o que eu vejo no espelho é uma camada de pele que cobre a essência da minha carne: Fracassado.
Tudo é pra ser assim? Está no meu DNA, personalidade, humor nunca vencer?
Me olhando nas águas límpidas do rio, percebo meu pesar, minhas olheiras, meu cansaço. Eu me inclino para beber do líquido vital e ignoro o beijo que dou na minha própria figura. Algo narcisista demais para meu ânimo despedaçado. E então percebo o golpe.
Eu fui abocanhado por um réptil sem pernas.
Minha vista escurece. Meu corpo desfalece. Minha alma livre se percebe.
Minha consciência provou da realidade e ela foi um veneno letal, mas meu cérebro fica vivo pra assistir a tortura: toda a amargura se convertendo em tremedeira. O destino estava selado. Só restava agora assistir o rio se passar para corredeira e me agredir de tal modo, que imobilizado já me sentia morto. Mas não senti a dor da morte, que sorte. Estava imobilizado olhando para o glitter celeste, para ver que algo atendeu minha prece. O tom azul que me cercava e me matava, na verdade me amava.
Eu voei.
Enquanto caía cachoeira abaixo.
Eu toquei o céu duplamente.
Me imagine agora, voando feito um passarinho na minha distopia afrodisíaca. Me imagine agora sorrindo, tossindo, sortudo, ossudo. Me imagine no lugar onde eu sempre quis estar, num azul, mas azul marinho. Sempre me senti atraído pelo escândalo. Meu céu era milhas e milhas abaixo do mar, num estado pleno de espírito em que barulhava nada mais que a melodia que permeia o peito cansado. Uma música sobre uma diversão eterna e destrutiva, mortífera.
Eu me senti realizado morrendo.
Me imagine agora no céu.
Cayo Rayan

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