Ressurreição .Poema.
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.Poema.
Ressurreição
Eu sinto um nó apertar fortemente minha garganta
Tanto, que minhas rimas esvaem, sou um pilantra
Eu perco a mão para as rimas, caído, destruído
Mas esse estado só minha resiliência agiganta
Apesar de incessantemente haver um alto ruído
Tão forte, que não me deixa usar os ouvidos
Estou dividido entre amá-los baixinho ou gritar: não.
Estive tanto tempo calado, ouvindo o preceito cristão,
Que não percebi que cultivava um alter ego pagão
Agora eles gritam abominações e eu seguro a boca
Para não contrariar suas almas, irrefutáveis, ocas
É tão errado discordar quanto não aceitar ser trouxa
O "certo" é um peso volumoso, com cor de jasmim
Vermelho vivo, sangue, que eu vejo escorrer em mim
Bater nesse ponto é como derrubar algo pelo pilar
Quer me ver morto por dentro?! Continue batendo!
Esses tapas quebram meu chão, meu sustento
Mas não caio, sou erguido por um agudo discernimento
Eu não tenho tristeza por não me calar, tenho medo
De que percebam que não voltarei atrás no preceito,
Que os jugo idiotas, omissos, por seus preconceitos.
Beijar uma pele negra foi o estopim para os surtos.
Valorizam tanto o sangue tradicional de seus frutos,
Que esquecem o quanto seus juízos são obscuros.
Um tapa não é tolerado quando vem por racismo.
Não por minha pele, mas quem ela tocou com desejo
Não vou aceitar que digam que no erro persisto.
-Não fiz nada de errado, ponto! Grito, ferozmente
Um passo à insubordinação, dei insanamente
Se continuasse, seria agredido por suas mentes
Verdades cuspidas por quem mais retrógrado, mente
As mesmas mãos que agora apertam meu pescoço
São as que dissecavam escravos até o osso
Você, segura uma faca, desloca meu dorso,
Porque quer como você eu continue no fosso
Renegar a mistura de sangue que é ser brasileiro
Me gritar, bater, me tratar como um mero desordeiro
Derramar meu sangue não faz do seu mais verdadeiro
Mas resistir custou caro, ele me cravou a faca
-Você vai sim obedecer quem mais te ama!
Então eu falhei, tão covarde. Radicalismo no drama
Certamente eu estaria apenas adianto o banho de lama
Porque, suas almas são como fedorentos porcos
Veem o mundo no piso à detiva de seus barcos
São como portugueses do século XVI, lunáticos.
E prontos para o fatídico dia de serem comidos.
Mas, meu espírito cansa, um corte no coração
Não doeria tanto se não me afundasse no chão
Vocês me veem morrer, felizes, conservando sua ordem
Mas suas falhas, também, visivelmente, eclodem
Matar não é cristão, nem achar que tudo podem.
Imagino como seria que contasse tudo o que penso
Se soubessem que pagão eu sou perdidamente todo
Que isso é apenas a ponta da quebra de modos
Hoje eu caio, sangrando, pelo corte de sua faca cega
Amanhã renascerei, se acha que não, babaca.
Vão me ver tocar fogo no circo, e rir com a desavença.
A renascença pisa no medievalismo. Ai, ai, ai.
E meu eu lírico vai provar (d)isso, ah se vai!
Mesmo que pare de falar as mesmas rimas tristes.
Mesmo que perca a parte mim, vinda de vocês.
Mesmo que morra de hemorragia.
Cayo Rayan

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