Conchas Vermelhas .Conto. 🅴

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Cayo Rayan

🅴

.Conto.

Conchas vermelhas

   Uma bela praia, águas limpas, ventos fortes, o que isso poderia esconder?
   Um casal se senta à mesa para o jantar, com vista para praia que embeleza a frente da casa.
   -Tenho que falar com você, Alexandre...
   -O Que? – Pergunta o homem franzindo a testa.
   -Achei uma blusa no seu quarto.
   -E o que tem nisso?
    -É uma blusa feminina, vermelha...
    -Nossa filha deve ter esquecido ela lá.
    -O você que pensa que eu sou?! Uma burra?! Lavo nossas roupas toda semana, sei que aquilo não é meu nem dela!
    -Ela tem vinte e um anos, não cinco. Deve ter comprado uma nova, não sei.
    -Ela disse pra mim que não era dela, antes de sair! Como você explica isso?!
    -Onde você quer chegar ?! Isso não faz sentido!
    -Onde você chegou ?! Eu aceitei vir com dois filhos seus pra este fim de mundo, mesmo sabendo do seu “trabalho” medíocre!
    -É o que vem sustentando esse casa!
    -Além de ser um traficante, tenho um marido que me trai. Você é um porco, Alexandre!
     -Me respeite sua vaca! – E o homem deu um tapa na mulher, que caiu no chão.
     -Não faça isso papai! - Gritou o menino de três anos, que até agora permanecia calado.
    A mulher levanta e saca uma pistola.
    -Eu não esperava que isso fosse chegar a esse ponto. Tenho que acabar com isso de uma vez por todas. – Disse ela enquanto se recompunha.
     -Mas o que...
     -Pra fora, agora.
     -Como assim?!
      -Agora, Alexandre!
      O homem empurrou o prato no chão, e caminhou em passos largos até a porta.
     -Fique aqui- A mulher falou ao menino.
    -O que vai acontecer com papai?!
    -Nada que ele não tenha pedido... – Encostou a arma na parte de trás da cabeça do marido.
    -Até a praia, sem gracinhas.
    -Você não é louca de... Tudo isso por uma blusa?!
    -Não duvide de mim.
    -Eu sou o líder da facção, se fizer alguma coisa comigo eles virão atrás de você. Me diga como vai lidar com este tipo de gente sozinha?
    -Sem ameaças, até a praia.
    O troglodita olhou furioso, mas cedeu. Desceram até a praia e se aproximaram de uma pequena gruta.
   -Molhe tudo de gasolina e queime.
   -Esse estoque vale mais de meio milhão!
  -Ou quer que eu mesma faça?!
   -Se desperdiçar a gasolina aqui como pretende fugir depois de me matar?! É muito longe de qualquer outra cidade.
    -Não importa! – Lágrimas cortavam o rosto da mulher.
    -Como pretende pedir ajuda?! Vai ligar pra sua família chorando pra avisar que matou o marido? Ah, esqueci que não temos telefone...
    -Foram três anos aqui. Três anos! Aguentei tudo, tudo. Mas descobrir que meu marido além de ser um traficante, me trai debaixo do meu nariz, é demais!
    -Sim eu traí! É isso que você queria ouvir?! E ela faz parte dos meus negócios e é melhor que você!
    -Eu te amei! Mas você planejava me deixar por aquela dissimulada. Já pensou, eu sozinha com dois filhos seus?! Isso não pesa na sua consciência?
    -Se me matar vai ficar sozinha do mesmo jeito...
   -Pelo menos você teve um fim “apropriado”.
   -Estará pondo tudo a perder, suas “crias”, tudo.
   -Não me importo!
   -Mas você tem coragem mesmo de fazer isso?!
    Um barulho ecoou pela praia, o corpo, caído no chão, sangrava sobre conchas brancas, que teriam um tom muito mais vivo a partir daí. A mulher soltou a arma tremendo, pôs fogo no estoque de drogas da gruta e se trancou em casa com o filho.
   Mas apenas dois dias depois da morte do troglodita, a praia se tornou um ponto de conflito entre as principais facções do México, que acreditavam que o cobiçado estoque estava escondido em algum lugar dali. A esposa traída e a pequena criança foram feitos de reféns e mortos por uma destas facções, na mesma praia, que teria conchas vermelhas pra sempre.

Cayo Rayan




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