A Vila Das Pessoas Estranhas .Conto.

Cayo Rayan


 .Conto.

A vila das pessoas estranhas

   Depois de perambular por um dia inteiro pelo que imaginava ser a divisa entre o estado da Bahia e de Minas Gerais, Francisco avistou uma pequena vila ao horizonte. Cavalgou em sua direção em cima do jumento que lhe acompanhara a viagem inteira.
    Havia apenas uma rua, casas bem simples, uma igreja e o que parecia uma venda. Não sabia qual o nome do lugar, mas já foi se apressando para conseguir se abrigar até o amanhecer, quando partiria rumo ao seu destino.
     Amarrou o jegue numa árvore e foi em direção à venda. Estava com fome depois de andar sob sol forte. 
     O dono do estabelecimento era um homem simpático de meia idade. Era barrigudo e quase totalmente careca (se não fosse a dúzia de fios que estavam no topo de sua cabeça).
     -Opa. O que vai querer?
     -Uma dose de uísque e saber onde posso ficar essa noite.
     - Jucicreuda! Traga uísque pro homem, minha filha.
     Francisco olhou surpreso para o Homem. Depois de alguns segundos uma moça apareceu à porta com uma garrafa. Era bem feita de corpo. Mas os olhos vesgos não deixavam distinguir para onde ela olhava, se era para uma parede ou para o pai, embora o rosto estivesse voltado para Francisco.
    Neste instante uma segunda moça idêntica a Jucicreuda apareceu.
    -Que homem pai?
    -Ora, Jucimary. Vá cuidar em lavar a roupa.
    -Armaria “nam”. Pode mais nem perguntar das visitas.
    -Agora deixem o moço em paz. Vão acabar espantando clientela.
    E as duas saíram resmungando.
    -Se me permite, qual é sua graça?
    -Francisco, e a sua?
    -Meu nome é Robinceu.
    Naquele instante Francisco já levava o copo cheio à boca.
    -De onde você é?
    -Sou de Minas Gerais – Dizia o moço, mas foi interrompido mais uma vez.
    -Seu Robinceu, o que tu disse pra minhas fias? Ela estão reclamando lá dentro.
    -Joaquina eu mandei elas se retirarem e deixarem o cliente em paz.
     -Mas “ocê” trate bem suas fias. Não é porque tem gente aqui que você pode destratar elas.
     - “Uai”, agora essa?!  Vai cuidar da tua vida mulher.
     A mulher também saiu dali resmungando enquanto Francisco olhava tudo desconfiado.
     -Deve ser bem difícil saber quem é quem das suas duas filhas não é? Como conseguem?
     -É muito difícil. Às vezes nem elas mesmas sabem quem são. Quando eram crianças ficaram horas discutindo isso.
     -Nossa!
     -Meu rapaz. O que te traz a essas bandas?
     -Um parente morreu. O enterro é amanhã.
     -Ora, que azar. O ano virou ontem, estamos comemorando e você indo pra um enterro?!
     Francisco numa breve pausa, olhou para um calendário na parede, marcava primeiro de janeiro de 1987.
     -O que eu posso fazer não é?
     -Passe essa noite aqui, temos um quarto nos fundos,  alugamos a preço de banana. Vai ter “tertulha” hoje. Amanhã você chora por seu parente.
      Francisco apesar de hesitar, aceitou a proposta. Decidiu ir à igreja para pedir perdão ao pecado que ia cometer ao festejar enquanto um parente tinha morrido.
       A igreja estava fechada. E ao perguntar para uma menina sobre o padre, ficou sabendo que o mesmo se chamava Claribelo, era viúvo e tinha viajado para a casa da sogra.
    -Nesta vila até mesmo o padre é estranho.
   Voltou para a casa de Robinceu, onde comeu e se aprontou para a festa.
    As pessoas se reuniam em frente à igreja, Francisco já tinha bebido muito, sua vista já estava embaçada, quando decidiu dançar com uma das gêmeas, filha do homem que lhe oferecera abrigo.
    -Jucicreuda, quer dançar comigo?
    -Quero sim.
     -Ei! Espere, Jucicreuda sou eu. – Disse a outra moça se aproximando.
     -Não, eu que sou Jucicreuda!
    -Não, você só tá dizendo é porque ele chamou pra dançar. Mas ele disse Jucicreuda, e Jucicreuda sou eu.
    -Mas será possível que nem dançar eu posso mais Jucimary?!
    -Meu nome é Jucicreuda!
    -Não importa, eu só quero dançar – E Francisco pegou a mão de uma delas.
    -Mãe! Jucimary roubou meu par!
    A festa toda parou quando Joaquina se levantou da mesa onde bebia com o marido.
    -Chega, vão as duas pra casa. E não dê um piu!
    -Mas, mãe, ela roubou meu par.
    -Não quero saber, vão as duas.
    -E com quem eu vou dançar? – Perguntou o moço confuso.
    -Com minhas filhas é que não vai ser. Ficam fazendo escândalo.
    -Mas, mãe, pelo amor de Deus!
    -Vai!
    As duas foram em direção à casa brigando de quem seria a culpa, A mãe das moças se sentou novamente na mesa com o marido, e Francisco ficou sozinho a festa toda. O homem se embebedou tanto que quase não conseguiu voltar para a casa onde passaria a noite.
     Acordou com uma forte dor de cabeça, sem lembrar quase de nada que ocorrera no dia anterior. A dor aumentou ainda mais quando o moço percebeu que, na cama, junto com ele, estavam as duas gemas totalmente nuas.
    -Oh, meu Deus! O que foi que eu fiz?
    Uma das jovens acordou, e olhou para ele, dando um sorriso contido.
    -Mainha não deixou eu dançar com você na festa, vim dançar com você na cama.
    Neste instante Sr. Robinceu empurrou a porta do quarto e viu a cena.
   -Mas o que está acontecendo aqui?!
  -Eu não sei! Quando eu acordei, elas tavam ai. Mas eu não fiz nada.
  -Seu cabra sem futuro, desonrou minhas filhas, agora vai casar com elas!
   -Casar?! Com as duas?! Deus me livre!
   -Com as duas, e se o padre não fizer o casamento, eu mato ele!
   Francisco, juntou as roupas espalhadas no chão, colocou-as debaixo do braço e fugiu pelado mesmo. Correu até a árvore onde tinha amarrado o jegue que lhe servira de transporte a viagem toda, o animal não estava mais lá. Sem alternativas, ele correu pra os fundos de uma casa que parecia abandonada. Vestiu as roupas e viu uma senhora, que aparentava ter mais de 90 anos, cozinhando. A idosa, apesar de as vezes olhar para o lugar onde Francisco estava, não dizia nada, parecia ser cega.
    -Senhora?
   -Quem está aí?
  -Eu sou um viajante, estou numa confusão com o Sr. Robinceu, a senhora pode me ajudar?
   -No estado em que estou não posso fazer muita coisa por você, meu filho... Mal tenho forças pra me manter em pé enquanto cozinho o resto da comida que tinha guardado. Quando ela acabar, eu não sei o que vai ser de mim.
   Francisco vasculhou os bolsos, tinha alguns cruzeiros, deveria dar à velha mulher e ficar sem nada, ou continuar a viagem com o pouco que lhe restava?
  -Vou dar o meu dinheiro à senhora, quando a comida acabar terá com que se manter.
   -Não sei como agradecer, meu filho.
   -A senhora sabe quem aqui na vila seria capaz de roubar um jegue?
   -Olhe na casa ao lado, tem um velho rabugento que vive roubando minhas coisas.
   -Obrigado.
   Francisco saiu da casa liso, mas feliz por ter ajudado a pobre velhinha. Foi até a casa do suposto ladrão e viu um jegue parecido com o seu. Olhou em volta e partiu dali montado no jumento, mas não foi pela estrada, se meteu na mata e seguiu caminho por ela até estar afastado o suficiente da vila. Só então entrou na estrada e foi ao enterro do parente morto.
    O pobre homem só viria a saber muitos anos depois que aquela vila era muito mais estranha do que imaginava. A família do Sr. Robinceu fazia as filhas dormirem com os hóspedes para ver se obrigava alguém a se casar com alguma das duas, e o corrido na festa era parte do plano. A Sra cega, na verdade, via muito bem, se chamava Sebastiana, era macumbeira e toda a cena que fez Francisco ajuda à “doce velhinha” era atuação. A casa ao lado que pertenceria à um “velho rabugento” na verdade pertencia a umas das filhas de Sebastiana, e mesmo tão perto da mãe,  usava a casa como um ponto de encontro com o Sr. Robinceu, que era um dos namorados mais “fieis”. O padre Claribelo, não era padre, nunca pisou num seminário, se intitulava um para lucrar com as ofertas dos fiéis.
  Jucicreuda engravidou de Francisco, e o filho também nasceu com os olhos vesgos. 


Cayo Rayan


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